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ADÉLIA
Está escrito no evangelho: mal é o que sai da boca do homem e não o que entra, mas foi pela boca que o capeta entrou no meu corpo e passou a viver agarrado às minhas tripas. Os vizinhos todos comentam meu estado, finjo que não é comigo.
Eles ainda se lembram do tempo em que eu trabalhava fora, era casada com Alcides e tinha uma filha linda e loira como todo mundo. Hoje mais pareço uma baleia comendo dia e noite sem parar em frente à televisão, exatamente como minha mãe.
Um dia ela também começou a comer e não parou mais. Meu pai, não suportando vê-la naquele estado, foi embora de casa. Casou-se novamente e teve outros filhos. Insistia para que eu fosse morar com ele, mas mamãe jamais permitiu.
A lembrança que tenho deles é de um casal feliz, destes que andam pelas ruas de mãos dadas trocando segredos e agrados o tempo todo. Nossa casa vivia cheia de gente. De um dia para o outro, mamãe desatou a comer. Papai trancava a comida nos armários, mas ela os arrombava berrando a quem quisesse ouvir: não me tire o único prazer que me resta na vida.
No final, tinha dores insuportáveis que a faziam urrar a noite inteira. Eu colocava travesseiros aqui e ali para que as dores diminuíssem. O difícil era dar banho naquela mulher imensa que já não levantava da cama.
Mamãe morreu antes dos cinqüenta anos. Depois de sua morte, minhas noites tornaram-se silenciosas e eu pude finalmente cuidar da minha vida. Vendi a casa onde morávamos, comprei outra menor e arranjei um ótimo emprego, onde conheci Alcides, com quem me casei.
Alcides era um rapaz bonito e alegre. Vivíamos indo a bailes e andávamos de mãos dadas trocando segredos e agrados o tempo todo. Eu adorava receber seus amigos. Nossa única filha era loira e bela como o pai.
Certo dia, Alcides trouxe Nereu para jantar conosco. Ele logo se tornou íntimo, destes que dormem no sofá da sala e acordam cedo pra acender a churrasqueira.
Uma noite, depois que ele se foi, sentei-me à mesa que ainda estava posta e comi o resto de todos os pratos. No café da manhã devorei dez pãezinhos com leite condensado. Percebendo que havia algo errado, Alcides sugeriu que eu procurasse um médico, talvez um psiquiatra. Pedi que ele não me tirasse o único prazer que me restava na vida.
Em poucos meses dobrei de peso e não saía mais de casa. Do emprego fui demitida por telefone, nunca mais vi ninguém do escritório. Mandei fazer umas camisolas imensas de algodão e passo o dia com elas. Só me levanto para ir ao banheiro. Por enquanto ainda consigo.
Alcides fez as malas e foi embora. Casou-se com mulher magrinha e bonita.
Foi-se o marido, foram-se os amigos, foi-se o emprego, mas engana-se quem pensa que minha história é igual à história da minha mãe. Salvei minha filha. Fiz questão que ela fosse morar com o pai.
Um dos contos extraído do livro: Falo de mulher |